domingo, 8 de fevereiro de 2015

Porque adoramos imaginar o fim do mundo?

Enquanto a cultura pop sempre se mostrou encantada com o gênero 'apocalíptico', parece que atualmente o tema vem passando por uma certa popularidade e tantas variações que é difícil explicar. Em tempos passados, a primeira pergunta respondida em livros sobre o Fim do Mundo, era de como iríamos sobreviver. Trocando em miúdos, onde encontraríamos abrigo, quem nos governaria, quais os novos funções e papéis que as pessoas precisariam assumir? O mais interessante é que, com certeza, estas perguntas podem ser respondidas milhares de vezes, e de diversas formas bem diferentes.
Talvez o que tanto nos atrai para este cenário, seja justamente as diferentes perspectivas desses questionamentos. Algumas mais óbvias podem ser encontradas em nossa seleção de livros para fãs de zumbi, outras mais elaboradas foram listadas na postagem 'Livros que retratam um futuro apocalíptico'. Também, em nossa coluna de resenhas literárias, tivemos a chance de analisar o fato por uma angulo nacional, com obras como Apocalipse Zumbi, de Alexandre CallariOutra Era, de Leonardo de Andrade

Mais recentemente, comecei a folhear a saga 'As Crônicas dos Mortos', de Rodrigo de Oliveira e lançada pela Faro Editorial. Nesta obra, que acaba de ganhar uma terceira parte, o autor introduz uma releitura ao estilo, dando uma explicação que tenta conciliar ciência e religião com o objetivo de exterminar mais da metade da população do planeta. Em seu enredo, cientistas descobrem um planeta vermelho em rota de colisão com a Terra. Depois de muito pânico nos quatro cantos do mundo, eles asseguram que o astro passaria a uma distância segura. Todos ficam tranquilos, até que uma profecia esquecida da bíblia, reiterada por outros profetas modernos, ressurge:“Então 2/3 de todas as pessoas no Planeta são acometidas por uma estranha doença... E abriu-se o poço do abismo, de onde saíram seres como gafanhotos com poderes de escorpiões. E os homens buscarão a morte e a morte fugirá deles." Apocalipse 9:2-6.

Para entender melhor o clima construído neste cenário, assista o book trailer abaixo de A Senhora dos Mortos, o terceiro volume desta saga:




Mas, além de admirar o trabalho oriundo da 'ficção apocalíptica', este texto tem como objetivo explorar por que nós, como leitores, achamos ela tão interessante. O que tanto nos atrai em uma leitura sobre um futuro sombrio em que a maioria de nós estão mortos? Eu fiz algumas pesquisas para tentar entender a psicologia dessa nossa obsessão pelo fim do mundo, e também tenho meus próprios pensamentos sobre o tema que eu não consegui encontrar em lugar nenhum.
Para chegar ao âmago da questão, eu cavei algumas razões que talvez expliquem esse mórbido interesse pelo nosso fim.

1. Cenários apocalípticos nos oferecem a oportunidade de examinar a humanidade, e o que ela realmente tem feito de si
É a primeira coisa que qualquer um pensaria sobre o tema, e até acredito que seja verdade. O que não consigo entender, é porque não podemos simplesmente fazer isso agora? Nosso mundo está ficando cada vez mais subdividido, repartido em partes cada vez menores por pessoas cada vez mais diferentes,... Será que realmente precisamos esperar pelo Apocalipse para mudar isso?
Parece que ainda estaríamos fracionados, pelo menos de acordo com a maioria das obras do gênero. As facções são a base do jogo. Encontre o seu grupo, ou logo estará morto. É provável que o poder nesta situação caísse nas mãos dos grupos mais cruéis, como saqueadores, piratas, bandidos e outros tipos de criminosos. E, no entanto, ainda haveria uma maioria de pessoas sorrateiras, apenas tentando sobreviver a esse triste evento. 
Acho que deveríamos começar a analisar a possibilidade de reavaliar a humanidade sem precisar esperar pelo fim do mundo.


2. O fim dos tempos nos dá uma excelente perspectiva de mudança
Isso certamente desempenha um papel na nossa obsessão. Muitas pessoas guardam coisas que gostariam de mudar dentro de si. Deparar-se com a destruição total de tudo o que conhecemos é um excelente momento para evoluir como espécie. E se isso for verdade, a raça humana talvez seja a única capaz de se reinventar sempre que quiser. A virada do ano, o seu próximo aniversário, formatura, casamentos, qualquer outro rito de passagem construído na base da experiencia humana, é uma excelente oportunidade de virar mais uma página do calendário e se re-inventar. É possível que alguns de nós almejem grandes mudanças em nível pessoal ou até global, uma que exige o fim do mundo como ponto inicial, mas acredito que a maioria dessas mudanças podem começar de forma razoável e com conceitos mais acessíveis.
Para algumas pessoas, a oportunidade de mudar é nada mais que o desejo de fugir do seu passado, ou até mesmo o presente. Mas, mesmo que o mundo começasse todo de novo, será que nós realmente aprenderíamos com nossos erros pessoais e sociais? A nossa história ainda faz parte de nossa psique, não importa o que acontece com o mundo que nos rodeia. Você provavelmente não perderia seu gosto por cerveja, só porque a bebida não existiria mais.

3. Nós simplesmente adoramos a destruição, por mais estranho que isso pareça
Essa é irrefutável, mas não a principal razão pela qual estamos atraídos para o apocalipse. Em um mundo onde as manchetes jornalísticas são em maioria compostas por notícias trágicas, o nosso planeta pode acabar parecendo um lugarzinho bem assustador. E geralmente é.
Claro, também existe a nossa fascinação pela morte. Afinal, é disso que realmente se trata o apocalipse - a morte em massa. E é da nossa natureza humana procurar respostas para esse tema. Este gênero nos permite fazer isso em uma escala bem maior, e, em muitos aspectos, torna tudo isso menos verossímil. É uma maneira mais eficaz de nos fazer refletir sobre a morte (e, inevitavelmente, o sentido da vida), do que faria um livro sobre um pai que está sendo devastado por uma doença degenerativa; por exemplo. A natureza fantástica e global do 'fim dos tempos', fornece um choque de realidade brutal sobre como seria o nosso próprio apocalipse.
4. A chance de reconstruir o nosso mundo
À primeira vista, isso parece simples como restartar um jogo. Mas é importante manter-se em mente que há uma diferença crucial entre se criar algo novo, e apenas se livrar de algo ruim. Nossa sociedade está sempre pronta para criticar algo, mas geralmente odeia parar e tentar uma solução com novas ideias.
Acredito que os seres humanos possuem um constante desejo inato de construir coisas novas. Seja um texto original na internet, um aplicativo diferente para celular, ou um novo brinquedo com velhas peças de Lego, o ato de criação permite mais uso do nosso cérebro do que qualquer outra coisa. E assim nos dá mais satisfação e realização, bem acima de quase qualquer outra atividade.
O apocalipse concede a humanidade o dom da criação na maior escala que se possa imaginar. Nós podemos construir novos edifícios, sonhar com melhores infra-estruturas, e trabalhar com nossas mãos para suprir nossas reais necessidades. É, de fato, uma visão bem romântica, se você puder ignorar a parte das mortes e destruição, é claro. Nossas criações não seriam prejudicadas pelos sistemas já existentes no mundo conhecido. Isso não seria algo agradável de se imaginar de vez em quando?

5. O apocalipse revela nossa verdadeira natureza
Enquanto este tipo de cenário nos faciliata examinar a humanidade em grande escala no contexto atual, fica mais difícil examinar nós mesmos em uma escala menor. Que tipo de pessoa seríamos quando não há contas para pagar, funções de trabalho para atender, regras de civilidade a seguir? E o mais importante, um mundo em que a sobrevivência reina e nos força a revelar o que realmente somos por dentro.
Você se sairia bem como um solitário? Ou seria alguém que precisa profundamente de uma comunidade? Seria uma pessoa gentil e amorosa, ou alguém que se aproveita da fraqueza dos outros? Será que você se adaptaria rapidamente ou ficaria para trás e apegado as velhas formas de vida? Faria qualquer coisa para proteger a sua família, ou se acovardaria sob ameaças?

Estas são questões que muitas vezes nos perguntamos: mas são de difícil entendimento a curto prazo. Existe algumas formas em que podemos nos colocar em situações que testam nossa coragem - como acampar ou fazer trilhas em matas fechadas - mas essas oportunidades são raras e espaçadas entre si. Nutrimos um profundo desejo de nos conhecermos, e nesse nosso mundo acelerado, simplesmente não há muito tempo para essa auto-avaliação. O apocalipse nos permitiria diminuir o ritmo e fazer um balanço do nosso caráter interior de uma forma dramática. E isso, meus amigos, é na minha opinião a maior razão pela qual andamos tão atraídos para este gênero incrivelmente popular.
O que você acha? Alguns desses pensamentos já ocorreu em seus pensamentos? Então eu adoraria ouvir seus pensamentos em nosso espaço de comentários.
Fonte: http://www.ditopelomaldito.com/2015/02/porque-adoramos-imaginar-o-fim-do-mundo.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+ditopelomaldito+(Dito+pelo+Maldito)

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