terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Sensação térmica de mais de 50°C no Rio de Janeiro?

Rio: calor de 50°, arrastões, falta de água e luz cara fazem verão virar inferno
Jornal do Brasil

Sob sol forte e intermináveis engarrafamentos, estação perde a tradicional alegria



Verão com sensação térmica de mais de 50°C no Rio de Janeiro

O verão é historicamente conhecido como a estação da alegria e do lazer. Mas, pelo menos no Rio de Janeiro, a época mais esperada do ano tem trazido emoções bem diferentes. Como se não bastassem as temperaturas que batem recorde, transformando um mero dia de sol num insuportável caldeirão, os arrastões nas praias, a falta de água e de luz em comunidades carentes e os intermináveis engarrafamentos sob sensação térmica de 50°C transformam o verão carioca num verdadeiro tormento. Se tudo isso não é suficiente para acabar com o bom humor, basta esperar o fim do mês para conferir a conta de luz. Tarifas 17,75% mais caras e aumento no consumo resultam num valor pelo menos 100% mais caro do que em outros meses.
Além do aumento da violência nos pontos turísticos, especialmente na orla, quem pisa na Cidade Maravilhosa passa por uma prova de resistência com as altas temperaturas e uma ausência de chuva que já dura 14 dias. Com muita sorte, o trabalhador pode embarcar em um ônibus com ar condicionado, para enfrentar os obstáculos, ou melhor, as obras da prefeitura espalhadas por toda a cidade, em um percusso que, devido às inúmeras intervenções, pode ser estendido por mais de três horas sob o sol escaldante. O prefeito insiste que as mudanças no trânsito trarão benefícios para a população. Resta saber, para qual geração da população, porque a atual vive apenas o sacrifício sem fim. E com a falta de água em algumas regiões, até tomar banho passa a ser uma missão complicada e que vai exigir resiliência da população.
No último fim de semana, as praias lotadas serviram mais uma vez como chamariz para a marginalidade, quadro que vem se repetindo e tornando-se cada vez mais comum desde o início da estação, com arrastões e assaltos, especialmente a turistas. Neste domingo (18), um tumulto em frente ao Shopping Leblon, na Zona Sul, deixou turistas e banhistas em pânico. Segundo a Polícia Militar, sete homens e 41 menores foram detidos e levados para a 14ª DP (Leblon). Uma viatura da PM foi atingida por uma pedra atirada por menores que deixaram a praia e seguiam um um coletivo, que também sofreu uma tentativa de depredação. Em revistas à ônibus, policiais aprenderam dois outros menores e um homem que portava um facão e drogas. No Recreio, na Zona Oeste,  policiais apreenderam dois menores que portavam uma pistola falsa.
O sociólogo José Augusto Rodrigues, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destaca uma característica peculiar no Rio. "Se por um lado observamos uma desigualdade socioeconômica, o Rio também permite uma mistura grande nos seus espaços públicos. A praia é democrática e pode ser também um espaço de conflito", avalia o especialista. Para Rodrigues, o poder público deveria promover ajustes nas políticas de segurança pública visando conter as "desordens urbanas" que vêm acontecendo nos fins de semana. "Claro que isso deve ser feito dentro dos limites do direito de ir e vir das pessoas, sem interferência de qualquer característica estigmatizante", salienta.   
Quanto os problemas ocasionados pela falta de água e luz em alguns pontos do Rio, Rodrigues considera que são impactos que o governo regional já previa, no entanto, não preparou a população para o momento atual de crise. O especialista avalia que o cenário no estado, assim como em todo o Brasil, é consequência de um processo que vem ocorrendo desde a década de 50, quando aquecimento global ainda era um assunto para um futuro distante. "Os efeitos chegaram agora com mais intensidade. No ano passado, já registramos as temperaturas mais quentes no mundo e eventos climáticos também em esfera global", disse ele, acrescentando que o carioca agora está sentindo os efeitos de um fenômeno real, o aquecimento global. 
Problemas estruturais
De três a cinco dias sem luz e água. Assim tem sido o verão na comunidade do Borel, na Zona Norte do Rio. Segundo Mônica Francisco, membro da Rede de Instituições do morro, a Light e a Cedae, concessionárias responsáveis pelo abastecimento dos serviços de energia elétrica e água, respectivamente, tem justificado aos moradores problemas de sobrecarga e consumo excessivo. "É um transformador que estoura, aí ficamos sem força elétrica para o funcionamento da bomba de água, então, ficamos sem água também. Um verdadeiro efeito dominó", conta a líder comunitária.  
Interagindo com outras comunidades cariocas, Mônica garante que o quadro é o mesmo em diversas regiões pacificadas do Rio. "A Light reformou o seu sistema nessas áreas para regularizar a situação dos moradores, dando, inclusive, direito a desconto dependendo do nível de consumo. Como eles [Light] pararam de repente e sem qualquer justificativa os melhoramentos, o morro ficou dividido em registrados e não registrados, gerando outros tipos de problemas. Por exemplo, lançamento de contas com valores excessivos à moradores que passa o dia todo fora de casa, ou seja, tudo indica estar incorreto", conta Mônica. 
Sem luz, a máquina que impulsiona água para caixa de distribuição não funciona, gerando mais um incômodo para a população. "Aí a coisa pega, é horrível ficar sem água neste calor. Passamos quase uma semana assim", relata ela. Situação parecida é vivida pelos moradores de duas comunidades do Complexo do Alemão, Matinha e Mineira. "Desde o ano de 2010 duas caixas d´água foram construídas pelas obras do PAC, uma ao lado do teleférico do morro da Mineira e outra no alto do morro da Matinha. Só que até hoje não instalaram o sistema e nem uma gota d´água caiu nesses reservatórios. A população continua com esse problema crônico", conta o Coordenador do Instituto Raízes em Movimento do Complexo do Alemão, Alan Brum Pinheiro. 

Nenhum comentário: